Quinta-feira é dia de TBT, por isso, hoje vamos recordar uma construção que fez história nos anos 70: o antigo pier de Ipanema. Os mais velhos com certeza lembram da estrutura, na altura do posto 8 na praia de Ipanema, que se estendia da areia até o mar, e foi um símbolo nada óbvio da cultura da época. A construção, erguida no auge do Regime Militar, carregava uma tubulação responsável por despejar os dejetos dos bairros mais ricos da cidade diretamente no mar. 

O píer dividiu a praia e, apesar de pouco provável, fez nascer tendências no mar e na areia em seu entorno. Entre os anos 1970 e 1975, o local reuniu surfistas, ondas radicais, artistas importantes do cenário pop da época, jovens praianos e diversos movimentos culturais de culto à liberdade. 

A obra possibilitou o surgimento do que ficou conhecido como “as dunas do barato” ou “as dunas da Gal”, onde nasceu poesia, cultura e resistência. Para fazer a tubulação chegar até o ponto correto na água foi preciso alterar o solo e a profundidade do mar, o que mudou as ondas no local. Antes o melhor pico de surfe era no Arpoador, com a chegada do pier as ondas cresceram e os amantes do esporte adotaram o local que se tornou o  melhor pico da Praia de Ipanema. Segundo uma história popular, os primeiros que surfaram nas ondas do pier ficaram conhecidos como metralhinhas, formados por irmãos mais novos dos surfistas que eram impedidos de surfarem no Arpoador. 

Já as “dunas” foram formadas pela areia removida para implantação do pier. Depositadas no início da praia, serviam como uma espécie de barreira, de forma que quem passava na calçada não conseguia ver o que acontecia naquele ponto da praia. Assim, tinha-se o cenário perfeito, um reduto de cultura e liberdade sexual e de expressão, em meio a austeridade da ditadura no Brasil. O píer permaneceu montado nos anos mais autoritários do governo do general Emílio Garrastazu Médici, lembrado principalmente pela tortura e crimes cometidos durante o regime militar. 

Assim, aquele pedaço em Ipanema fez nascer, a partir de 1970 uma espécie de resistência às imposições da época, como uma forma de fugir do comprometimento irrestrito que era exigido da juventude na luta contra a ditadura. Houve um teor festivo que contrastava com o duro cenário que estava imposto sobre o país e mesmo após o desmonte do píer, em 1975, o imaginário de liberdade se manteve e abriu caminho para o surgimento de outros movimentos culturais de resistência como o Circo Voador no Arpoador, sete anos depois.

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